Logo | Dr. Luiz Carneiro CRM 22761
Home RobóticaContato

Transplantes de fígado intervivos

O transplante de fígado intervivos é uma opção para pacientes com doenças hepáticas graves que não possuem tempo hábil para aguardar um doador cadáver, ou seja, necessitam da cirurgia urgentemente. Descubra como esse procedimento é realizado, quem pode ser um doador e seus benefícios. Clique aqui e tire suas dúvidas!

Introdução

O fígado é um órgão vital para o funcionamento do corpo humano, desempenhando diversas funções essenciais, como o metabolismo de nutrientes, a desintoxicação e a produção de proteínas importantes. 

Quando o fígado é afetado por doenças graves, como cirrose hepática, câncer de fígado, colangite esclerosante ou insuficiência hepática, o transplante de fígado pode ser a única opção viável para salvar e/ou melhorar a qualidade de vida dos pacientes. 

Neste artigo, vamos explorar o transplante de fígado intervivos, incluindo o que é o fígado e sua importância, a história e as indicações do transplantes de fígado, o que é o transplante intervivos e quais os critérios de compatibilidade e como é realizado o transplante, quais os riscos, e como é o pós-operatório. Leia até o final e saiba mais!

O que é o fígado e qual a sua função?

Localizado ao lado direito do abdome, o fígado é uma glândula constituída por milhões de células, chamadas de hepatócitos, responsáveis por produzir substâncias importantes para o equilíbrio do organismo. 

Algumas das principais funções do fígado incluem:

  • Metabolismo de nutrientes: o fígado regula os níveis de glicose no sangue, armazena glicogênio para liberar energia quando necessário e processa proteínas e lipídios.
  • Desintoxicação: o fígado processa toxinas, álcool, drogas, hormônios e outros produtos metabólicos indesejados do corpo.
  • Produção de proteínas: o fígado sintetiza proteínas vitais, como a albumina, que regula a pressão sanguínea, e fatores de coagulação para evitar hemorragias.
  • Armazenamento de vitaminas e minerais: o fígado armazena vitaminas lipossolúveis, como a vitamina A e D, e minerais como o ferro.
  • Produção de bile: a bile é produzida pelo fígado e armazenada na vesícula biliar, sendo liberada para ajudar na digestão de gorduras.
  • Destruição das células sanguíneas desgastadas e de bactérias: o fígado processa as células sanguíneas envelhecidas e ajuda a combater bactérias invasoras.

Porém,  apesar de ter uma boa capacidade de recuperação, certas doenças são capazes de provocar insuficiência hepática e levar o paciente ao óbito. Deste modo, os médicos podem indicar o transplante de fígado como forma de tratamento.

Quando se iniciou o processo de transplante?

O primeiro transplante de fígado foi feito no ano de 1963, em Denver, nos Estados Unidos. Uma criança de três anos foi submetida a uma cirurgia, realizada pelo doutor Thomas Starzl, mas morreu durante a operação. No mesmo ano, ele fez outros dois transplantes de fígado, mas os pacientes viveram por pouco tempo.

Em 1967, o doutor Thomas Starzl repetiu o mesmo tipo de cirurgia de transplante de fígado, e conseguiu que o paciente sobrevivesse por um período mais longo. No entanto, acabou morrendo por conta das metástases de um câncer anterior ao transplante.

Por sua vez, a América Latina viu seu primeiro transplante de fígado em 1968, realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo no Brasil. 

Desde então, avanços significativos na técnica cirúrgica, imunossupressão e cuidados pós-operatórios dos transplantes hepáticos transformaram esse procedimento em uma opção de tratamento viável e eficaz para pacientes com doenças hepáticas terminais, o que é demonstrado pelo aumento do número de transplantados a cada ano.

Quando o transplante de fígado deve ser indicado?

Uma das principais doenças do fígado que necessita do transplante é a cirrose hepática. Ela é caracterizada por um dano irreversível das células hepáticas, e acontece quando a anatomia normal do fígado é substituída por um tecido de cicatrização, o que deteriora a função hepática. 

As causas da cirrose hepática são: hepatites B e C, hepatite autoimune, álcool, cirrose biliar primária, colangite esclerosante e cirrose biliar secundária.

Outras indicações incluem câncer de fígado e insuficiência hepática. Além disso, o transplante pode ser considerado para pacientes que não respondem ao tratamento convencional ou que têm uma expectativa de vida muito limitada sem a intervenção cirúrgica.

O que é o transplante de fígado intervivos?

O transplante de fígado intervivos é uma modalidade que permite a retirada de uma parte do fígado de pessoas perfeitamente sadias, para doá-lo ao paciente com doença no fígado. 

É importante destacar que, esse tipo de transplante, inicialmente, foi pensado para crianças, devido ao baixo número de doadores nos primeiros anos de vida. Muitas vezes, o paciente não tolera a espera por um órgão e pode evoluir ao óbito.

Assim, essa técnica é frequentemente utilizada quando não há doadores falecidos disponíveis. Ela oferece a vantagem de minimizar o tempo de espera.

Quais são os critérios de compatibilidade entre receptor e doador vivo?

Para que um transplante de fígado intervivos seja possível, é necessário que haja uma compatibilidade adequada entre o doador e o candidato ao transplante

Primeiramente, precisa haver a compatibilidade do tipo sanguíneo ABO, pois o tipo sanguíneo do doador deve ser compatível com o do receptor para minimizar o risco de rejeição.

Em seguida, é analisada a compatibilidade entre o peso e altura do paciente e do doador. Posteriormente, avalia-se o tamanho do fígado a ser doado, e é preciso calcular a relação entre o peso do fígado com o receptor. 

Finalmente, e não menos importante, é avaliada toda a anatomia do doador e do receptor, como veias, artérias e vias biliares.

Não é necessário que ambos sejam parentes, por isso, conhecidos, casais, irmãos e primos também podem doar parte do fígado. Porém, todo ato de doação tem que ser voluntário e respeitando os critérios e limites judiciais.

Como é o transplante de fígado com doador vivo?

Habitualmente, as cirurgias do transplante de fígado intervivos ocorrem de forma simultânea, ou seja, inicia-se a cirurgia do doador, e se tudo estiver dentro do esperado, a cirurgia do receptor é feita logo em seguida. 

O transplante do doador vivo mais realizado para adultos é a hepatectomia direita, com a retirada de aproximadamente 70% do fígado saudável (lobo direito) do doador vivo, podendo, em alguns casos, respeitar a proporção da relação do peso do fígado doado com o peso do receptor, e usar o lobo esquerdo (mais usado em crianças).

Com isso, a cirurgia do receptor prossegue normalmente, com a retirada do órgão doente (hepatectomia total), seguida pela fase anepática e depois com a colocação do órgão no paciente (receptor) que foi retirado do doador vivo

Antes do implante do órgão, uma importante etapa é a de preparo do órgão, chamada back-table, com o objetivo de realizar o preparo e adequar o calibre e o tamanho do órgão e dos vasos a serem implantados.

O doador e o receptor são monitorados de perto durante o período pós-operatório para garantir uma recuperação adequada e para evitar complicações.

O transplante de fígado intervivos é um procedimento complexo e demorado, que pode levar entre oito e dez horas. A técnica envolve a utilização de microcirurgia, pois os vasos sanguíneos na região são muito finos.

Quais são os riscos do transplante de fígado intervivos?

O transplante de fígado intervivos já é bem estabelecido e bastante seguro. Porém, não está isento de riscos, ou seja, é reportado na literatura mundial um risco de complicações em geral por volta de 12 a 15%, desde complicações simples, como infecção da ferida cirúrgica, pneumonia, trombose de membros inferiores, entre outras. Muitas destas são encontradas em cirurgias e outros procedimentos do dia a dia.

É importante saber e reconhecer o risco de óbito (por volta de 0,05%) nesse tipo de procedimento, podendo ocorrer em centros grandes e reconhecidos por todo o mundo. 

Riscos associados ao receptor vivo

Embora o transplante de fígado intervivos seja considerado seguro, ainda existem riscos envolvidos, que são semelhantes aos do receptor que recebe o órgão de um doador cadáver, como: 

  • Rejeição: mesmo com compatibilidade, o sistema imunológico do receptor pode rejeitar o órgão doado. Portanto, é necessário o uso de medicamentos imunossupressores para prevenir essa reação.
  • Infecções: o receptor está mais vulnerável a infecções devido à imunossupressão necessária para prevenir a rejeição. Portanto, é essencial um acompanhamento médico rigoroso.
  • Complicações cirúrgicas: como em qualquer cirurgia, existem riscos cirúrgicos, como sangramento, infecção ou complicações relacionadas à anestesia. 

Ainda, devido ao calibre dos vasos serem menores, assim como a via biliar, existem mais problemas com a artéria e a via biliar. 

Outro problema importante para o receptor é o não funcionamento do órgão transplantado, que pode ser, neste caso, quando ele fica pequeno para o peso do receptor, ou ele sofre com o procedimento do transplante e não funciona, necessitando em alguns pacientes de uma nova cirurgia ou novo transplante.

Riscos associados ao doador vivo

O doador vivo enfrenta riscos consideráveis associados à doação de parte de seu fígado, incluindo:

  • Complicações cirúrgicas: como em qualquer cirurgia, existem riscos de sangramento, infecção e complicações relacionadas à anestesia. 
  • Risco de complicações a longo prazo: alguns doadores podem enfrentar complicações a longo prazo, como cicatrizes ou problemas hepáticos. Portanto, o acompanhamento médico a longo prazo é essencial para monitorar a saúde do doador.

Por isso, é sempre importante que o doador seja orientado pelo médico, e fique ciente dos riscos dessa cirurgia, antes de decidir realizá-la. A recuperação do doador, normalmente, é muito boa e em pouco tempo, ele retorna para suas atividades habituais.

Como é o pós-operatório do transplante de fígado intervivos?

O pós-operatório de cada cirurgia depende das condições pré-existentes do paciente transplantado. Na teoria, se o receptor estiver em situação favorável de saúde, pode suportar melhor a operação e, consequentemente, se recuperar mais rapidamente.

Depois da cirurgia, os pacientes, doador e receptor, podem passar de 1 a 2 dias em uma unidade de terapia intensiva, caso não haja alguma complicação. No total, o tempo de internação varia de uma a duas semanas. 

Após a operação, o tratamento do paciente receptor é voltado para a doença que ocasionou a lesão do fígado e levou ao transplante. Ainda, o receptor deve tomar medicamentos imunossupressores pelo resto da vida para evitar a rejeição do órgão. 

Também são necessários exames médicos regulares para monitorar a função dos fígados transplantados e identificar precocemente qualquer sinal de rejeição ou complicações.

Infelizmente, parte dos portadores de cirrose podem evoluir para câncer de fígado enquanto aguardam o transplante. Nesse caso, o paciente precisa de mais cuidados e o risco de complicações pós-transplante é aumentado.

O doador requer um período de recuperação após a cirurgia, em que deve seguir rigorosamente as orientações médicas. O fígado remanescente normalmente se regenera e recupera sua funcionalidade completa em algumas semanas ou meses.

Conclusão

O transplante de fígado intervivos é uma opção de tratamento valiosa para pacientes com doenças hepáticas graves. Essa modalidade especial de transplante oferece esperança de uma vida melhor para aqueles que enfrentam um futuro incerto. 

No entanto, é importante que o procedimento seja realizado por equipes médicas altamente especializadas, e tanto o doador quanto o receptor devem ser submetidos a rigorosas avaliações para garantir a segurança e eficácia do procedimento. 

A doação de órgãos, seja de um doador vivo ou falecido, continua a ser um ato de generosidade que pode transformar vidas.

Para saber mais informações, assista ao vídeo abaixo.

Gostou? Compartilhe!
dr Luiz Carneiro

Profº Dr.Luiz Carneiro

CRM: 22.761/SP

Diretor do Serviço de Transplante e Cirurgia do Fígado do Hospital das Clínicas, professor da FMUSP e chefe do Departamento de Gastroenterologia da FMUSP.

magnifiercrossmenuchevron-down