Saiba quais critérios definem a compatibilidade em transplantes de fígado entre vivos. O texto aborda desde exigências legais e tipo sanguíneo até a importância da proporção de peso entre doador e receptor, além da avaliação psicológica envolvida no processo.
Doação de fígado com o doador vivo
Critérios determinam se um doador é compatível para um transplante de fígado intervivos
Quando uma pessoa deseja doar o órgão para outra e a lei brasileira permite que a doação ocorra até o quarto grau de parentesco, não é exigida autorização judicial. Irmãos são considerados primeiro grau, primos segundo, e assim por diante, até o quarto grau.
Caso a doação envolva alguém fora desses graus de parentesco, é necessário obter autorização judicial. O juiz avaliará se há algum interesse oculto, como motivações econômicas ou trocas de favores. A doação pode ser feita para amigos ou qualquer pessoa, desde que se comprove que o gesto é movido por altruísmo, como um ato de solidariedade semelhante ao de um bom samaritano.
Há casos em que pacientes pertenciam à mesma igreja, e um deles, muito querido pela comunidade, conseguiu autorização judicial para doar. Diversas pessoas da congregação se ofereceram, mas foi escolhido um doador específico. A justificativa para essa escolha envolve critérios que vão além do vínculo emocional.
O primeiro critério técnico é o tipo sanguíneo. Por exemplo, uma pessoa do tipo O, teoricamente, pode doar para qualquer outro tipo (A, B, AB e O). Já uma pessoa do tipo A pode doar para indivíduos do tipo A e receber de tipo O. Assim, quem é do tipo A pode receber de A e O, enquanto indivíduos dos tipos A, B, O e AB podem, em algumas condições, receber de A, AB ou O. Portanto, a compatibilidade sanguínea é fundamental.
Outro fator importante é o peso do doador e do receptor. Uma pessoa com 45 ou 50 quilos, por exemplo, dificilmente poderá receber um fígado de alguém que pese 150 quilos. Apesar de ser possível retirar apenas uma parte do fígado, pode ocorrer incompatibilidade nas estruturas anatômicas, como artérias, veias e ductos biliares, em função da diferença de tamanho corporal.
Para garantir segurança, é necessário que haja uma proporção de peso adequada entre doador e receptor. Uma pessoa com 120 quilos, por exemplo, tem um fígado que corresponde a aproximadamente 2% do seu peso corporal, o que equivale a cerca de 2.400 gramas. Nesse caso, o ideal seria receber entre 0,8% e 1% do peso corporal em fígado, ou seja, de 1.000 a 1.200 gramas. Logo, o fígado doente seria substituído por essa quantidade.
Uma pessoa de 50 quilos, com fígado pesando aproximadamente 1 kg, não conseguiria doar para alguém com 120 ou 130 quilos, pois essa pessoa precisaria de mais do que o fígado inteiro. Doar apenas uma parte não seria suficiente, pois o órgão não conseguiria atender às necessidades de um corpo muito maior.
Assim, a proporção ideal ocorre quando, por exemplo, o receptor pesa 70 quilos e o doador 75 quilos. Além do peso, a constituição física também importa. Pessoas muito magras podem não ter espaço suficiente para receber nem mesmo uma parte do fígado. Esse é um desafio comum em transplantes pediátricos, nos quais é necessário retirar apenas uma pequena porção do fígado e, em seguida, realizar cirurgias adaptativas para que o órgão caiba corretamente na cavidade abdominal.
Além dos critérios físicos, há também uma avaliação psicológica. Psicólogas do hospital participam do processo, assim como a equipe de enfermagem e os cirurgiões. Um dos cirurgiões retira o fígado e outro o implanta no receptor. Antes da cirurgia, há uma conversa detalhada com o doador, explicando todos os riscos envolvidos.
Há riscos ao realizar o procedimento
O procedimento, embora seguro, não é isento de risco. Há uma taxa estimada de mortalidade em torno de 1%, valor que é comunicado de forma clara aos envolvidos. Além dos aspectos clínicos e cirúrgicos, é essencial discutir o impacto emocional do processo. O doador deve estar ciente de que, por mais que deseje ajudar, o receptor pode estar muito doente, e o sucesso do transplante não é garantido.
Caso ocorra um desfecho negativo, como a morte do receptor, o impacto emocional no doador pode ser muito significativo. Por isso, é fundamental que o doador esteja emocionalmente preparado para todas as possibilidades. Quando o transplante é bem-sucedido, a alegria e a gratidão são duradouras. No entanto, um evento adverso pode gerar sofrimento difícil de superar.
O processo precisa ser consensual e seguro emocionalmente. Toda a família precisa estar de acordo. Muitas vezes, o próprio receptor resiste à ideia da doação, por receio de colocar o doador em risco, seja um filho, irmão ou outro ente querido. Nesses casos, a equipe médica deve dialogar, esclarecendo que o risco, embora existente, é considerado pequeno.
Na experiência da equipe mencionada, tanto ali quanto no Hospital das Clínicas, não houve nenhum caso de doador que tenha falecido em decorrência do procedimento. Ainda assim, todas as possibilidades são sempre discutidas com a família, para garantir segurança, clareza e acolhimento em todas as etapas do processo.