TRANSPLANTE  DE  FÍGADO

INTERVIVOS

  • O que é o fígado e qual a sua função?

Localizado ao lado direito do abdômen, o fígado é uma glândula constituída por milhões de células, chamadas de hepatócitos, responsáveis por produzir substâncias importantes para o equilíbrio do organismo. Entre as funções, estão: armazenamento e liberação de glicose, metabolismo dos lipídeos, metabolismo das proteínas, síntese da maioria das proteínas do plasma, processamento de drogas e hormônios, destruição das células sanguíneas desgastadas e de bactérias, e emulsificação da gordura durante o processo de digestão através da secreção da bile.

Apesar de ter uma boa capacidade de recuperação, certas doenças são capazes de provocar insuficiência hepática e levar o paciente ao óbito. Deste modo, os médicos podem indicar o transplante de fígado como forma de tratamento.


  • Quando se iniciou o processo de transplante?

O primeiro transplante de fígado foi feito no ano de 1963, em Denver, nos Estados Unidos. Uma criança de três anos foi submetida a uma cirurgia, realizada pelo doutor Thomas Starzl, mas morreu durante a operação. No mesmo ano, ele fez outros dois transplantes de fígado, mas os pacientes viveram por pouco tempo.

Em 1967, o doutor Thomas Starzl repetiu o mesmo tipo de cirurgia de transplante de fígado, e conseguiu que o paciente sobrevivesse por um período mais longo. No entanto, acabou morrendo por conta das metástases de um câncer anterior ao transplante.

Por sua vez, a América Latina viu seu primeiro transplante de fígado em 1968, realizado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo no Brasil, pela equipe do doutor Marcel Cerqueira César Machado. Desde este procedimento, a técnica vem sendo desenvolvida e o número de transplantados aumenta a cada ano no País.


  • Quando o transplante de fígado deve ser indicado?

Um dos principais motivos da necessidade do transplante é a cirrose hepática. Ela é caracterizada por um dano irreversível das células hepáticas, e acontece quando a anatomia normal do fígado é substituída por um tecido de cicatrização, o que deteriora a função hepática. As causas da cirrose hepática são: hepatites B e C, hepatite autoimune, álcool, cirrose biliar primária, colangite esclerosante e cirrose biliar secundária.


  • O que é o transplante intervivos?

O transplante intervivos é uma modalidade que permite a retirada de uma parte do fígado de pessoas perfeitamente sadias, para doá-lo ao paciente com doença no fígado. É importante destacar que, esse tipo de transplante, inicialmente, foi pensado para crianças, devido ao baixo número de doadores nos primeiros anos de vida. Muitas vezes, o paciente não tolera a espera por um órgão e pode evoluir ao óbito.


  • Quais são os critérios de compatibilidade entre receptor e doador vivo?

Primeiramente, precisa haver a compatibilidade do tipo sanguíneo ABO. Em seguida, é analisada a compatibilidade entre o peso e altura do paciente e do doador. Posteriormente, avalia-se o tamanho do fígado a ser doado, e é preciso calcular a relação entre o peso do fígado (doador) com o receptor. Finalmente, e não menos importante, é avaliada toda a anatomia do doador e do receptor, como veias, artérias e vias biliares.

Não é necessário que ambos sejam parentes, por isso, conhecidos, casais, irmãos e primos também podem doar parte do fígado. Porém, todo ato de doação tem que ser voluntário e respeitando os critérios e limites judiciais.


  • Como é o transplante de fígado com doador vivo?

Habitualmente, as cirurgias ocorrem de forma simultânea, ou seja, inicia-se a cirurgia do doador, e se tudo estiver dentro do esperado, a com a cirurgia do receptor é feita logo em seguida. O transplante do doador vivo mais realizado para adultos é a hepatectomia direita, com a retirada de aproximadamente 70% do fígado (lobo direito) do doador vivo, podendo, em alguns casos, respeitar a proporção da relação do peso do fígado doado com o peso do receptor, e usar o lobo esquerdo (mais usado em crianças).

Com isso, a cirurgia do receptor prossegue normalmente, com a retirada do órgão doente (hepatectomia total), seguida pela fase anepática e depois com a colocação do órgão no paciente (receptor) que foi retirado do doador vivo. Antes do implante do órgão, uma importante etapa é a de preparo do órgão, chamada back-table, com o objetivo em realizar o preparo e adequar o calibre e o tamanho do órgão e dos vasos a serem implantados.

O transplante intervivos é um procedimento complexo e demorado, que pode levar entre 10 e 12 horas. A técnica envolve a utilização de microcirurgia, pois os vasos sanguíneos na região são muito finos.


  • Quais são os riscos ao receptor intervivos?

Os riscos da cirurgia, para o receptor do intervivos, são parecidos com a do doador cadáver. Porem, devido ao calibre dos vasos serem menores, assim como a via biliar existem mais problemas com a artéria e a via biliar. Outro problema importante para o receptor é o não funcionamento do órgão transplantado, que pode ser, neste caso, quando ele fica pequeno para o peso do receptor, ou ele sofre com o procedimento do transplante e não funciona, necessitando em alguns pacientes de uma nova cirurgia ou novo transplante.


  • Quais são os riscos ao doador vivo?

A cirurgia já é bem estabelecida e bastante segura. Porém, não está isenta de riscos, ou seja, é reportado na literatura mundial um risco de complicações em geral por volta de 12 a 15%, desde complicações simples, como infecção da ferida cirúrgica, pneumonia, trombose de membros inferiores, entre outras. Muitas destas são encontradas em cirurgias e outros procedimentos do dia a dia.

É importante saber e reconhecer o risco de óbito (por volta de 0,05%) nesse tipo de procedimento, podendo ocorrer em centros grandes e reconhecidos por todo o mundo. Por isso, é sempre importante que o doador seja orientado pelo médico, e fique ciente dos riscos dessa cirurgia, antes de decidir realizá-la. A recuperação do doador, normalmente, é muito boa e em pouco tempo, ele retorna para suas atividades habituais.


  • Como é o pós-operatório?

Cada cirurgia pode depender das condições do paciente transplantado. Na teoria, se o receptor encontrar-se em situações favoráveis de saúde, pode suportar melhor a operação e, consequentemente, se recuperar mais rapidamente.

Depois da cirurgia, o paciente costuma passar de 1 a 2 dias em uma unidade de terapia intensiva, caso não haja alguma complicação. No total, o tempo de internação varia de uma a duas semanas. O mesmo pode acontecer com a pessoa que se propôs a doar o órgão ao paciente.

Além disso, após a operação, o tratamento do paciente é voltado para a doença que ocasionou a lesão do fígado e levou ao transplante. Infelizmente, parte dos portadores de cirrose podem evoluir para câncer de fígado enquanto aguardam o transplante. Este desenvolvimento precisa de mais cuidados e aumenta o risco pós-transplante.

Para saber mais informações, assista ao vídeo abaixo. 

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Prof. Dr. Luiz Carneiro

Diretor da Divisão de Transplantes de Fígado e Orgãos do Aparelho Digestivo do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

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